COP 30: evento na UFAM reforça papel de pesquisadores pelo clima

 
COP 30: evento na UFAM reforça papel de pesquisadores pelo clima

20/08/2025



A Universidade Federal  do Amazonas (UFAM) recebeu, nesta terça-feira (19), pesquisadores de toda a Amazônia Legal para debater as contribuições da ciência para a presidência brasileira da COP 30. O evento mais importante do mundo sobre mudanças climáticas acontece em novembro, em Belém (PA).

 

Ao longo do dia, pesquisadores se reuniram em seis salas temáticas para dar continuidade a um trabalho iniciado pelas instituições de pesquisas da Amazônia e que já resultou em um documento prévio com mais de 400 páginas. A versão final será entregue nesta quarta-feira (20) ao presidente da COP 30, o embaixador André  Corrêa do Lago, à  primeira-dama Janja, que é enviada especial da COP para mulheres, e para ministros do governo Lula.

 

“Esse evento é importante, porque, pela primeira vez, estamos organizando um documento de toda a ciência e tecnologia feita na região amazônica. Foram mais de 70 instituições trazendo as diretrizes para  o compromisso do Brasil em relação à mudança  climática, que tipo de compromisso o país pode assumir e como as metas podem ser alcançadas”, afirmou a reitora da Ufam e anfitriã do evento, Tanara Lauschner. 


Ela reforçou que o grande ponto da programação é reforçar a importância de ouvir os  cientistas da Amazônia para a tomada de decisões que influenciarão também a região. “Temos pesquisadores e pesquisadoras de excelente qualidade. Temos instituições com mais de 100 anos e outras mais novas, todas igualmente importantes e que precisam ser ouvidas”, reforçou. 

 

Os eixos que estão sendo discutidos no encontro são: Transição nos Setores de Energia, Indústria e Transporte; Gestão Sustentável de Florestas, Oceanos e Biodiversidade; Transformação da Agricultura e Sistemas Alimentares; Resiliência em Cidades, Infraestrutura e Água; Desenvolvimento Humano e Social; Objetivos Transversais – Financiamento, Inovação e Governança, entre outros.

 

Conselhão


 O evento é organizado em uma parceria entre as instituições de ciência e tecnologia da região e o Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável, apelidado de ‘Conselhão’. O secretário-executivo do órgão colegiado, Olavo Alves, ressaltou a importância de realizar o evento em uma cidade da Amazônia. 

 

“Muita gente se mete a falar da Amazônia, mas não sabe o que é isso, não vive, não sente. As pessoas querem dar aula de Amazônia e aqui estamos dizendo que quem dá aula de Amazônia é a Amazônia. Essa construção partiu dessa premissa”, afirmou.


Ele reforçou que esses debates, que acontecem também em outras áreas vitais do evento, demonstram que a COP 30 já começou.

 

“Estamos aqui, neste momento, em uma atividade da COP 30. Ela está acontecendo, as mesas de negociação dos mais de 200 países que participam de um evento como esse já estão acontecendo. O Brasil tem uma posição de cobrar do mundo a efetivação das NDCs, que são os compromissos assumidos por cada país, porque o mundo vem pra cá dizer ‘Salve a Amazônia’, mas o que a Amazônia e o Brasil querem dizer para o mundo? Esse é o debate que estamos fazendo”, pontuou.

 

Organização


O diretor geral do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), Henrique Pereira, explicou que foram convocadas todas as universidades federais, estaduais e instituições de ciência e tecnologia da região. As instituições privadas de ensino não participaram  do debate, mas havia representantes no evento desta terça-feira, na UFAM. 

 

“Cada uma dessas comunidades foi consultada. Enviamos um roteiro e internamente foi feita uma escuta. A pergunta que precisavam responder era direta: ‘como a sua organização pode contribuir?’. Quando começamos a reunir as respostas, as páginas se multiplicaram.  Criamos uma Comissão que produziu uma síntese para ser entregue ao presidente da COP”, explica.

 

Segundo  ele, surpreendeu a maneira como a pauta mobilizou dezenas de instituições na região. “Em tão pouco tempo,  conseguimos mobilizar a comunidade científica da Amazônia. Isso é uma prova de que sabemos fazer esses mutirões. Estamos muito motivados”, concluiu.

 

Críticas


Vencedor de um prêmio Nobel e um dos principais pesquisadores sobre mudanças climáticas no mundo, o cientista Philip Fearnside avaliou que o evento na UFAM pecou, até o momento, em não priorizar o debate centrado no clima. 

 

“Toda a discussão social, de grande parte do evento, é muito importante. Mas caso o clima escape do controle, todo o debate sobre justiça ambiental, povos indígenas, uso da floresta sustentável, bioeconomia, tudo vai para o espaço. Isso tem que ser falado claramente, e não vi isso nas apresentações do evento até agora”, disse para A CRÍTICA.


Questionada sobre a fala do pesquisador, a reitora da Ufam argumentou que a abertura do evento é um momento político e não substitui os debates que ocorrem nos espaços dedicados para as discussões sobre o clima. “O importante é que o documento que vai ser entregue tem indicações muito específicas de como chegar nas metas que foram feitas pelo Brasil nas outras COPs”, pontuou.

 

O cientista Philip Fearnside estende a crítica à maneira como o governo brasileiro tem se portado enquanto país que preside a Conferência deste ano. “O discurso é  bonito, mas dizer que o Brasil está na liderança não é verdade, porque liderança se faz com exemplo, não com discurso. O Brasil está fazendo a BR-319, quer explorar a Foz do Amazonas, e nada disso é exemplo. Estamos há 90 dias do evento e não há indicação de que o governo vá mudar sua posição”, afirmou.

 

Sobre a COP


A Conferência das Partes(COP) é a principal cúpula anual da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre mudanças climáticas, onde países negociam acordos para combater o aquecimento global. Na edição deste ano, em Belém (COP30), o debate sobre financiamento climático será central, focando em como escalonar o valor aprovado no ano passado, de US$ 300 bilhões anuais,  para a casa dos  trilhões. 

 

O financiamento climático é considerado crucial para que países mais pobres, que são  os mais afetados pelas mudanças do clima, como o Brasil, possam se adaptar ao problema e reduzir seus impactos no clima. Ainda é preciso definir com precisão como esses países poderão acessar os recursos e quanto exatamente vão receber. 

 

As nações emergentes defendem que o recurso venha principalmente dos países mais ricos, historicamente os que mais contribuíram para piorar o clima. Já os governos dessas nações querem incluir o setor privado e oferecer empréstimos aos países pobres. Esse debate, que esteve presente nas últimas COPs, continuará em Belém.

 

Outro ponto crucial, e que enfrenta dificuldades de avançar, é a discussão sobre o fim do uso do petróleo, considerado um dos vilões da mudança do clima. Os países ainda se mostram receosos a debater essa transição, especialmente por ser uma fonte ‘rápida’ de verba e energia. O Brasil, que almeja explorar petróleo na Foz do rio Amazonas, é um deles.

 

*Fonte: Acrítica

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